Santa Catarina abriga a principal cadeia brasileira de salmão-do-pacífico cultivado em águas frias. Criado em gaiolas ao longo do litoral sul, o peixe alimenta o mercado interno de alto valor e, cada vez mais, exportadores que despacham filés para Ásia e América do Norte. Em 2026, uma atualização de protocolos sanitários em dois países importadores obrigou cooperativas catarinenses a revisar rastreabilidade do ovo ao container refrigerado.
A reportagem visitou uma central de beneficiamento em São Francisco do Sul e conversou com técnicos do MAPA, exportadores e pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina sobre o que muda na rotina das fazendas marinhas.
Como funciona a cadeia catarinense
A produção começa em incubatórios de água doce no Planalto, onde ovos fertilizados são mantidos até a fase de alevino. Os animais são então aclimatados e transferidos para tanques-rede em áreas de mar abrigado, com monitoramento contínuo de temperatura, oxigênio dissolvido e presença de algas nocivas.
O ciclo de engorda dura entre quatorze e dezoito meses, dependendo da biometria exigida pelo comprador. No abate, o peixe passa por inspeção federal, resfriamento e filetagem em plantas que atendem padrões equivalentes aos exigidos para exportação de carnes.
Novas exigências de importação
Importadores asiáticos passaram a exigir laudos laboratoriais ampliados para detecção de agentes virais específicos, com amostragem por lote e guarda de registros por cinco anos. Para cooperativas médias, isso significou contratar serviços de laboratório terceirizado e adaptar software de rastreio que antes terminava na portaria da planta.
Renato Kuhn, gerente de qualidade de uma exportadora em Itajaí, afirma que o custo por tonelada exportada subiu cerca de 4% no primeiro trimestre, mas que o investimento evitou bloqueio de cargas em inspeção alfandegária — cenário que, em 2024, causou prejuízo a um lote destinado ao Japão.
Papel do MAPA e sanidade
O Serviço de Inspeção Federal coordena com laboratórios credenciados a emissão de certificados sanitários internacionais. Técnicos do MAPA em Santa Catarina realizam auditorias periódicas nas unidades de criação, verificando registro de mortalidade, uso de vacinas autorizadas e conformidade de efluentes tratados antes do retorno ao mar.
Produtores que atendem apenas o mercado doméstico seguem as mesmas regras sanitárias básicas, mas nem sempre precisam do pacote documental completo exigido no exterior. A diferença de exigência cria incentivo para que médios produtores busquem certificação exportadora, mesmo que parte da produção seja vendida no atacado nacional.
Monitoramento ambiental
A aquicultura marinha no estado opera sob licenças que definem capacidade de carga por área. Pesquisadores da UFSC monitoram fundos oceânicos próximos a clusters de jaulas, medindo acúmulo de material orgânico. Estudos recentes indicam recuperação do sedimento em ciclos de doze a dezoito meses após desativação de tanques-rede, desde que o espaçamento entre linhas de gaiolas respeite limites técnicos.
ONGs locais pedem zoneamento mais restritivo em áreas de reprodução de espécies nativas. O debate ambiental não paralisou licenças em 2026, mas adicionou camada de consulta pública a novos pedidos de expansão.
Perspectiva para o setor
Apesar dos custos de conformidade, exportadores catarinenses avaliam que a demanda externa por proteína de aquicultura continua em alta. A competitividade brasileira está na integração vertical: incubatório, engorda, abate e exportação concentrados em raio de poucas centenas de quilômetros.
Para replicar o modelo em outros estados litorâneos, faltam águas frias estáveis e infraestrutura portuária refrigerada — condições que Santa Catarina cultivou ao longo de três décadas. A lição para o restante do país pode estar menos na espécie e mais na governança da cadeia: rastreio confiável, diálogo com órgãos ambientais e investimento contínuo em sanidade.